sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016

Sobre chegadas e partidas

Lembro-me como se fosse ontem. Estávamos em uma sala quentinha, com uma pequena mesa de madeira maciça logo à frente de duas cadeiras estampadas e um sofá aparentemente confortável. Na parede, uma também pequena lousa branca, carregada de antigas marcas de caneta no sentido mais literal da representação da ação “entendeu ou quer que eu desenhe? ”.

E ali estava ela, observando atentamente a garota do lenço cor de rosa – que já tem seus cabelos no estilo Chanel e que nitidamente não necessita mais ser denominada dessa maneira – enquanto tentava encontrar um espaço entre uma respiração e outra para dizer as palavras que serviriam como um grande estalo:

- Evelin, preciso te falar algumas coisas, se me permite. A primeira: Você não tem culpa! Para cada palavra negativa que disser sobre você mesma, preciso que faça o exercício de reconhecer pelo menos duas virtudes. Você sabe que não será difícil... A segunda, e que considero mais importante, disse enquanto caminhava suavemente até a parede com a lousa branca, preciso que me defina com uma palavra o que resume todo o seu processo com o câncer. Leve seu tempo, mas quando encontrá-la em sua mente, não a deixe ir embora.

- Sobrevivência! Respondeu depois de longos minutos e engolindo o choro. Cheguei até aqui porque queria sobreviver. 

- Muito bom! Era exatamente o que esperava ouvir de você... E hoje, também em uma única palavra, do que exatamente você precisa? Leve o seu tempo...

(...)

Existe um processo na vida pós câncer que é consideravelmente cansativo e intenso: O de seguir, literalmente, em frente.

Confuso, né? A mesma frase de todo final de texto no decorrer desses 4 anos tem um sentido além do propriamente dito. Demorei um pouco até entender que você realmente pode (e deve) seguir em frente. 

E se você enfrenta nesse exato momento o ‘core’ de um processo oncológico, posso afirmar após tantas cicatrizes o quanto a convivência com o câncer não é algo fácil de curar. E, sinceramente, agora que toda a mais intensa tormenta passou e resta-me apenas admirar o mar em seus suaves movimentos, acredito com todas as forças do meu coração que conviver com o fantasma dele também não seja. Levei um tempo para me desprender da sensação de viver como se pudesse morrer a cada momento. Não me refiro a morte que sempre me fará enxergar todas as coisas com gratidão, mas da morte que faz a gente sentir medo do grande quarto escuro que também é a vida, como os monstros do armário durante a infância. 

Sentir medo da morte é algo totalmente valido enquanto enfrentamos algo difícil, como um câncer por exemplo, mas conviver com alguém que vive com medo torna-se um desafio extremamente cansativo para aqueles escolheram caminhar ao seu lado no dia a dia. Difícil reconhecer isso? É. Fácil de mudar? Não. Mas se você está preso dentro desse conceito de acreditar que o seu processo é solitário, está na hora de mudar isso. É hora de pensar diferente.

Mas a convivência desprendida vem do desafio diário de enfrentar exames, consultas, efeitos colaterais, remédios, nódulos suspeitos, decisões que aparecem de surpresa e que precisam ser tomadas a curto e longo prazo, pessoas que chegam e pessoas tão queridas que partem... É isso: O grande presente chamado vida é embrulhado por Deus com alegrias e tristezas.

Processo lindo esse de me enxergar tão humana.... De tentar aceitar com o máximo de gratidão cada elemento dentro de cada um desses mesmos processos. Foi isso que me fez sumir por um tempo. E como todo processo de aceitação, tudo o que hoje escrevo com a mesma fé de antes também teve o seu preço: Diminui meu convívio social, parei totalmente de escrever para contar minhas histórias e parei até mesmo de responder todos as carinhosas mensagens que recebi e que recebo diariamente de grande parte de vocês. Quando me vi, já não me enxergava merecedora de cada palavra de incentivo e luta: Eu já havia sobrevivido... 

Quando me vi, estávamos sozinhos: Eu, minha gratidão por absolutamente tudo que me cercava e o medo de perder tudo, também absoluto.

Mas o que é absoluto não se vai. Ele fica aqui, encostadinho em um canto do peito, demonstrado em cada lagrima que disfarçadamente cai do rosto. O Criador concede a Força àquele que verdadeiramente muda.

Ao processo de aceitar o novo eu que hoje sou, sobre o que já fiz e também sobre a real companhia de todos os que já, de certa forma pequenina até, “conquistei”: Muito obrigada por ter me mudado. 

Aos que também enfrentam o desafio de recolher e arrumar a bagunça gerada pelo turbilhão de sensações e emoções que é o câncer na fase pós-sobrevivência, apenas não tenha medo. 

...

Alguns longos minutos se passaram e a garota do Chanel castanho escuro estava completamente afundando em seu mar de conflitos, sensações e sentimentos.

- Eu preciso... eu quero.... Não! Talvez fosse melhor se eu...

Mas ela não precisou de muito tempo para entender o recado. Foram apenas duas pinceladas com o pequeno apagador, desintegrando da palavra “Sobreviver” as letras s, o, b, r, e ... 

- Minha querida, faça um favor a você mesma e reconheça o presente que o câncer deixou antes de partir: Volte ao mundo e apenas viva!  

Um brinde ao nosso maior presente... E as diversas formas de se seguir em frente.

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