sexta-feira, 23 de outubro de 2015

Cadê o seio que estava aqui?

13 centímetros.

Essa é a medida que sai mais especificamente do centro do corpo - logo abaixo do meu seio “comprado” - e que termina perto a região do braço. A marca física de um processo repleto de idas e vinda e que gerou uma outra marca um pouquinho mais larga do que essa citada.

Na minha fase de descoberta do câncer, lembro-me de ter acordado e colocado automaticamente a mão no seio esquerdo. Confesso que nem eu e nem a minha ginecologista na época tínhamos esse costume. Cresci ouvindo a respeito do diagnóstico como na história do Harry Potter, onde não se podia "nomear" o grande vilão da história para não atraí-lo. 

Hoje, convivo com 13 centímetros que me fazem, diariamente, certa diferença frente ao espelho e na minha forma de enxergar os processos da vida. O mais estranho de escrever sobre isso é que mesmo 3 anos após o diagnóstico de câncer de mama e de um pouco mais de um ano desde a ultima cirurgia, esse assunto ainda é um grande mistério pra mim: Eu ainda não sei explicar a sensação que nasceu aqui dentro logo após o recebimento do diagnóstico e da notícia de ter que tirar completamente uma das mamas. 

Inicialmente, sabia que tinha que ficar bem e aceitar toda aquela situação para não dificultar todo esse processo aos que me amam e que também estavam sofrendo com a notícia. Depois, fui me (re)descobrindo e assim, agradecendo a cada oportunidade de "renascer" tão jovem. Sem o diagnóstico, a probabilidade de amadurecer tão menina seria quase inexistente e não tenho vergonha em assumir isso. Se questionar o por quê  das coisas faz parte do nosso processo individual e natural de aceitação, mas confesso que meu tempo de permanência dentro desse “buraco” durou até que relativamente pouco. Me questionei apenas uma vez sobre isso e no mesmo dia, olhei pra dentro e me perguntei friamente: ‘Pera aí, mas por que não comigo?’. 

Colocar-me como um ser humano nada diferenciado de qualquer outro foi o que precisava para aceitar todo o diagnóstico e passar a me fazer a pergunta correta: "Em quem essa experiência com o câncer pode me transformar?".

E assim o câncer chegou, trouxe um milhão de coisas novas e só levou embora a minha mama. Que por sinal, graças às próteses, estão como eu sempre quis. O resto (pelos e cabelos) foram estados temporários e reversíveis. Meu foco era totalmente na cura. E como sempre fui muito vaidosa, aquele processo de perder pelos, cabelos e ganhar peso, foi de verdade, encarado como uma grande libertação. Mas foi o "meu" processo. Cada vez mais, acredito na ideia de que o nosso organismo não esteja acostumado a tantas agressões internas. O meu não estava. E a minha cabeça em relação às mudanças também não. Leva um tempo até você se acostumar e dizer que é natural. Esse tempo pode ser rápido para uns – como foi para mim - ou extremamente lento para outros. 

Aceitar que não teria um seio natural foi um processo que, pelo menos pra mim, exigiu algumas longas e solitárias "conversas internas" frente ao espelho.

Hoje penso que são as minhas cicatrizes que mostram e relembram o meu caminho - e isso é lindo. Entre todas as minhas inseguranças e questionamentos sobre isso, também posso dizer com toda convicção e emoção desse mundo: a falta do meu seio também me ajudou na transformação de uma mulher um pouco mais forte, carregada de testemunhos...  Mas talvez você, paciente com câncer de mama e também mastectomizada, talvez você não queria saber exatamente sobre essa fase mais grata de uma – pesadamente falando - mutilação. Talvez você se olhe no espelho e se questione de algo que independe dos seus pensamentos – e de suas reações: Como posso me “apresentar” a sociedade assim? Como posso retomar a minha vida, seguir em frente e ser aceita pelo meu parceiro com uma “bolinha” mais dura no lugar de um colo macio, ou também por vezes, sem essa bolinha...

Ai, eu também abro meu coração e te digo claramente: Tamojunto! Eu ainda me preocupo quando penso em expor o meu corpo futuramente, quando entro em um provador de roupas com uma amiga por perto ou quando penso em comprar - e usar - "aquele" biquíni todo moderno da estação... Mas, quer saber? Nessas horas eu também faço o exercício de lembrar a minha história! Então, como num processo meio que "passo a passo", respiro fundo e sinto um grande orgulho por chegar onde cheguei: Eu não sou – e nunca fui - aquilo que me falta! 

Você também não é – e nunca será – aquilo que também te falta! E agradeço a maturidade que recebi junto aos meus 13 centímetros para reconhecer isso.

Quanto ao colo macio e as cicatrizes, não se preocupe e reflita: Talvez, e apenas talvez, a aceitação do próximo dependa única e exclusivamente da sua.

Leve seu tempo para (se) aceitar... e depois, siga em frente!

3 comentários:

  1. Nossa, Evy!! Te vendo assim hoje tão adulta, tão madura e forte, alegre, linda como sempre, me sinto orgulhosa por ter convivido por um ano com você!!! Com dezessete aninhos, você era uma menina tão graciosa, cheia de sonhos de estilista e me incentivava em tudo, sempre disposta e divertida, lembro daquela menina que, por diversas vezes me fez rir alto em sala de aula quando não podíamos...rsrsrsrs.... Me sinto privilegiada por te ver hoje, uma mulher totalmente completa, segura de si e como sempre disposta a utilizar sue experiência em benefício de outras pessoas, você realmente é especial, gatinha!!! Sinto saudades daquele tempo, mas sinto imensa felicidade por saber que você superou com maestria todo esse processo e continua fazendo barulho, alertando, de alguma forma, conduzindo muitas pessoas perdidas com essa situação!!! Suas palavras soam como bálsamo para os que passam por tudo isso!!! Continue, Evy!!! Você é especial demais e linda demais em todos os sentidos!!!!! <3

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  2. Me orgulho de ser tua amiga!!!!!!!! Quanta Lucidez!!!!!!

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  3. Assisti teu vídeo me.emocionei pois estou passando pela mesma situação fui diagnosticada com cancer de mama e terei que fazer a extração total.da mama direita mas com reconstrução imediata. Meu consolo é que não precisarei fazer esse tratamento tão agressivo mas.necessário. isso me conforta um pouco mais. Mas no primeiro momento fiquei mto revoltada agora.estou apenas pensando que vou fazer cirurgia pra colocar silicone me sinto mais segura pensando assim. Mas vou vencer tenho força e fé sou uma mulher Alegre cheia de vida tenho 36 anos e mta vida ainda pela frente. Adorei saber de sua história.

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